Éramos perdidamente loucos para sempre, imortais enquanto trajávamos aquela paixão supostamente eterna e acreditávamos que só a morte poderia desatar nosso laço, desviar nossos passos e criar óbito em nossos planos. Caminhávamos com a pele colada, com os planos juntos, como se andar de mãos dadas não fosse suficiente para alimentar nossa paixão. Não tínhamos rumo, nem queríamos mapas, nem sugestões para seguir. Queríamos ficar ali, intactos, sempre. Geralmente estávamos sozinhos, como se nossos corpos por sí se bastassem, sem a necessidade de outras companhias.
Nossas janelas viviam abertas, nossos sorrisos também. Estávamos sempre ocupados demais, com nós, que mal enxergávamos lá fora. Os carros, as pessoas, o planeta, nada disso fazia sentido em nossa órbita egoísta que se fazia naquele quarto repleto da gente, das nossas manias, nossas músicas, coisas que gostávamos de comer, além do nosso maior refúgio que seria um ao outro. Não ouvíamos a campainha, não atendíamos a porta, não ligávamos o celular, mas estávamos sempre atentos ao silêncio salivante de nossas línguas. Assistíamos ao dançar de nossos lábios e esse era nosso melhor programa, talvez o único. Alimentávamo-nos de nossas bocas, de nosso amor, de nossa saliva. Cantávamos e dançávamos juntos numa sincronia eterna, até adormecer.
Nós fomos tudo e o planeta um dia foi só nosso, sem intervenções, sem interrupções, sem nada além de nós. Eu era ele e vice-versa. Ele era meu verso e nunca meu vice. Éramos juntos nosso próprio vício e assim, intensamente, perdidamente,loucamente, consumimos todo fôlego inabalável que havia entre nós. Tragavámos nossos oxigênios sem medo da potencial asfixia, cheiravámos nossos perfumes até roubá-los da pele e depois de muitas invasões afiadas em nossas veias, nossa paixão se foi, morreu de overdose bem ali, diante de nossa cara incrédula. Nossos corações pararam de bater , pelos menos por nós. Sufocamos e sabíamos que precisávamos de novos ares.
Da última vez que o vi, guardamos nossas promessas em caixas de papelão, com todas as fotos e cartas e presentes, propositalmente esquecidas na minha última gaveta. Então nos despedimos com um beijo distante do rosto, seguido de uma mudez que certamente desejava boa sorte e mais nada. Fomos juntos até o carro, ele esperou eu fechar os vidros e naquela noite escura,não houve palavras, não houve cruzamento de olhares, muito menos amor.Ele se foi para sempre, sem ao menos olhar para trás. Do retorvisor ainda pude vê-lo dentro do quintal, desabando em lágrimas, convulsionando em soluços incontroláveis. Liguei o rádio e tocava Chico Buarque, dizendo "Quando você me quiser rever vai me encontrar refeita, pode crer! Olhos nos olhos, quero ver o que você faz ao sentir que sem você, eu passo bem demais ..." Então fiz dele, minhas palavras. Sábio Chico, adivinhou o que aconteceria... A música acabou de tocar, e o amor... também !
Caroline Perccicaroli.

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